GPS: No caminho certo
Camila Fusco - da Exame
2 de fevereiro de 2009
 
 

A nova geração de navegadores GPS vai além dos mapas e se aproxima cada vez mais dos computadores móveis - inclusive na conexão à internet

Imagine pegar o carro depois de um dia cansativo de trabalho e, no meio do caminho, resolver ir a uma happy hour com os amigos. Não há nenhum guia por perto com sugestões de lugares, mas um pequeno aparelho instalado acima do painel já é suficiente para, em dois cliques, indicar os melhores bares da região. A ideia é ótima, mas o combustível está acabando. Vai ser necessário encontrar um local para abastecer. .

O mesmo aparelho mostra um posto de gasolina a alguns quarteirões - e o melhor: com gasolina em promoção. Depois da parada estratégica, é a vez de seguir ao destino final. Não há por que se preocupar com um lugar para parar o carro, afinal a tela exibe não só os estacionamentos da vizinhança mas também eventuais descontos oferecidos por sua seguradora e o número de vagas disponíveis em cada um deles. Tudo rápido e simples. A experiência parece futurista, mas ilustra uma realidade próxima e inevitável para os aparelhos de navegação por GPS (sistema de posicionamento global, na sigla em inglês). Esses sistemas vêm ganhando a inteligência dos computadores portáteis e a conectividade da banda larga móvel. Ligados à internet, os aparelhos estão ganhando vida e, em pouco tempo, em quase nada lembrarão a época em que funcionavam como meros indicadores de caminho.

Os navegadores de GPS serão uma plataforma online de exibição de informações. Quem faz uma busca por um endereço de restaurante no Google recebe a informação em forma de texto. Quem fizer uma busca num GPS vai receber a mesma resposta indicada no mapa. Hoje, no Brasil, já existem aparelhos com microantenas capazes de captar informações em tempo real sobre as condições do trânsito e caminhos alternativos.

A Movix, representante no país da marca taiwanesa Mio, criou o serviço Indica, que agrega informações de órgãos oficiais, como as companhias municipais de engenharia de tráfego de São Paulo e do Rio de Janeiro, e de empresas de monitoramento de trânsito para avisar o motorista dos incidentes e dos pontos de congestionamento. (A Movix tem uma parceria com o Guia Quatro Rodas, da Editora Abril, que edita EXAME.)

Ainda não foram lançados por aqui aparelhos que permitam que o motorista faça buscas de serviços diretamente no GPS, mas é uma questão de tempo. Chips semelhantes aos dos telefones celulares farão a conexão do GPS à rede e permitirão que os aparelhos interajam com a internet. Os serviços de trânsito hoje dependem das frequências de rádio - a Movix tem um acordo com a rádio Bandeirantes para a transmissão das mensagens.

Num futuro próximo, poderão ser baseados também na concentração de usuários de celulares em determinada região, que serão mapeados por uma operadora. "É possível estimar a densidade de usuários em cada lugar da cidade e, assim, medir os níveis de trânsito", diz Benoit Simeray, vice-presidente de vendas para a América Latina da holandesa TomTom. A empresa é uma das maiores vendedoras de GPS do mundo e acaba de criar um escritório próprio no Brasil. Simeray não revela os interlocutores, mas afirma que a TomTom já negocia com operadoras de telefonia para viabilizar um modelo semelhante ao que existe em seis países da Europa, em parceria com a Vodafone.

Na esteira do crescimento dos GPS conectados, amadurecem também os serviços de localização. De acordo com a consultoria americana ABI Research, mundialmente o número de usuários deve subir de 12 milhões em 2006 para 315 milhões até 2011, impulsionado pela popularização de serviços de navegação e até de localização de pessoas por meio de redes sociais. Os GPS de hoje, especialmente no Brasil, já trazem na memória diversos pontos de interesse que podem ser acessados pelo motorista, como bares, restaurantes, parques, cinemas, hotéis e postos de gasolina. Tais informações são pré-carregadas no aparelho de GPS pelo usuário, transferidas por meio de um pen drive. Não é possível encontrar indicações diferentes daquelas que estão incluídas na memória. Essa limitação está perto do fim com a ligação do GPS à internet.

"Como num sistema de busca, com os navegadores conectados, a programação semanal do cinema ou o restaurante que mudou de endereço poderão ser consultados diretamente na rede em tempo real", diz George Perros, analista da ABI Research. É claro que essas funções vão depender muito das parcerias que os serviços de localização devem firmar com as fontes de informação. Na Europa, essas parcerias estão bem avançadas com cadeias hoteleiras, que informam ao motorista imediatamente se há quartos disponíveis, de que categoria e que cartões de crédito aceitam.

A era do GPS conectado também promete revolucionar a publicidade online. O usuário poderá visualizar no mapa o logotipo de bancos, imobiliárias ou agências de veículos, como já acontece no serviço de localização Apontador MapLink na internet. Tudo isso é possível graças às camadas sobrepostas no mapa e que podem ser refinadas pelo usuário de acordo com aquilo que quer visualizar.

Com essa tecnologia, as campanhas de marketing assumem novos contornos. "Nesse modelo, seria possível passar em frente a um restaurante e receber imediatamente um cupom de desconto virtual, com base em um pré-cadastro feito num site", diz Frederico Hohagen, diretor de vendas e marketing da LBS Local, controladora do Apontador MapLink.

Segundo ele, até o fim do primeiro semestre será possível observar serviços do gênero no Brasil. "Isso só depende da preparação dos equipamentos e do software para interagir nessa tecnologia", afirma Hohagen. Também há divergências ainda não resolvidas sobre as fronteiras entre os serviços informativos e os publicitários na tela do GPS. Não há um modelo definido, mas tudo indica que, quando a publicidade na telinha virar realidade, o usuário poderá decidir o tipo de mensagem que admite receber, semelhante ao que já existe para marketing por e-mail.

Hoje, os pontos de interesse são considerados conteúdos e são incluídos com base em uma avaliação do local por uma equipe especializada. Ninguém paga para estar lá. "Quanto à publicidade, é necessário um modelo opcional para que os aparelhos não sejam invadidos por propaganda", diz Luis Filipe Costa, coordenador de marketing da Movix. O acúmulo de funções no GPS também gera preocupações por parte dos especialistas em trânsito.

Atualmente, o Conselho Nacional de Trânsito permite a instalação do navegador apenas para indicação de trajetos, proibindo conteúdo de entretenimento. Como ocorre com os celulares, teme-se o risco de distração dos motoristas, em especial quando chegarem os aparelhos conectados à internet. "Esse é realmente um problema que já tem despertado a atenção dos órgãos normativos de trânsito", diz Julyver Modesto de Araújo, presidente da Associação Brasileira de Profissionais do Trânsito.

Mercado em ebulição
O mercado brasileiro de GPS ainda está distante dos líderes mundiais, mas é considerado um dos mais promissores pelos fabricantes. Em 2008, estima-se que tenham sido vendidos 200 000 navegadores no país. Para 2013, a previsão é chegar a mais de 1 milhão de aparelhos, segundo a ABI Research.

Em comparação à frota de veículos em circulação no país - mais de 50 milhões, segundo o Departamento Nacional de Trânsito -, esse número é pequeno, mas ilustra o potencial do mercado local. O número ainda é pequeno frente ao volume mundial - só nos Estados Unidos, foram vendidos 10 milhões de navegadores no ano passado, e no mundo, 44 milhões.

O fato de estar atrás de vários outros países também não é de todo ruim. Entre os principais fatores que devem levar à popularização está a queda de preços no mercado legal. Em 2006, um aparelho básico custava em média 2 500 reais, ao passo que atualmente um modelo equivalente é vendido a 900 reais.

"É bem possível que agora países como o Brasil nem precisem passar pela era do GPS desconectado. Isso representa um salto tecnológico para os novos usuários", diz Tim Shepherd, analista da consultoria americana Canalys. O que não resta dúvida é sobre o potencial de efeito comportamental da tecnologia do novo GPS. Em tempos de convergência avançada, não será de estranhar que o GPS vá além do papel de guia geográfico, passando não só a ditar o caminho ao motorista mas interferindo até nos padrões de consumo.

 
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